Direto do Twitter

05/10/2009

Por que não investir em outras coisas?

Serão gastos R$ 26 bilhões nas Olimpíadas do Rio de Janeiro (tem gente que fala em R$ 28,8 bilhões, isso sem falar nos R$ 138 milhões que já foram gastos com campanha e no R$ 1 milhão que foi gasto para abrigar o comitê de postulação brasileiro na Dinamarca). É muito dinheiro. Dinheiro que não é investido em saúde, educação, segurança. Quem pagará essa quantia?

Desculpe, presidente Lula, mas enquanto saúde, educação e segurança não receberem investimentos substanciais que façam diferença na vida do cidadão brasileiro, que transformem o Brasil, R$ 26 bilhões pras Olimpíadas não é investimento, é gasto. Gasto desnecessário. Principalmente se lembrarmos que o Brasil não é um país preocupado realmente com o esporte, já que boa parte das maiores estrelas do país não tem patrocínio.

Novamente estamos atropelando o rumo da história. Como diria meu irmão, first things first.

A campanha de trânsito de POA

Essa campanha de trânsito que vem sendo promovida pela prefeitura de Porto Alegre é digna de aplausos. É uma campanha que já devia ter sido executada há muito tempo. É uma campanha semelhante à de Brasília, da época do governo do Cristóvão Buarque, que funcionou bem, embora já não tenha o mesmo poder que tinha.

Agora, em Porto Alegre não sito que vá funcionar tão bem assim. E o motivo é mais complexo do que parece. Não tem nada a ver com a consciência dos motoristas. O problema de Porto Alegre é a localização das faixas de segurança. Normalmente, elas ficam posicionadas nas esquinas da cidade. Ora, um carro que vem trafegando por uma rua e pretende dobrar à direita na rua seguinte não tem capacidade para visualizar com tranquilidade se há um pedestre pretendendo atravessar a rua na esquina. As faixas de segurança deveriam estar posicionadas mais para dentro das quadras, o que daria boa visibilidade para qualquer motorista, evitaria que o pedestre se visse obrigado a apertar o passo e não causaria acidentes com os automóveis que estivessem trafegando atrás do que está na frente vendo o pedestre.

Vamos nos preparar para muitos acidentes e atropelamentos…

29/05/2009

Uma proposta sobre a recente discussão acerca da leitura

Uma discussão que muito me interessa e sobre a qual procuro refletir com meus alunos na UFRGS é a forma como a leitura é trabalhada na escola. Escreveram recentemente sobre o tema Sergio Rodrigues (aqui e aqui), Carlos André Moreira (aqui, aqui e aqui — este último acertando em cheio na questão), o Alexandre Rodrigues (aqui e aqui), e a Gabriela Rassy, que detonou a discussão (aqui), analisando um lançamento sobre o assunto. Todos jornalistas, todos bons e ávidos leitores, os três primeiros com blogs que se dedicam quase exclusivamente a debater livros e literatura.

A preocupação de todos é a minha também: em resumo, como estimular a leitura na escola? No entanto, por ter trabalhado anos em colégios particulares dando aulas de Literatura (e para onde, provavelmente, voltarei em breve), por estar trabalhando num curso superior de Letras em que o assunto é pensado com frequência e, enfim, por ser professor, acredito que tenho uma proposta viável para atingir o êxito no desafio ou, pelo menos, uma visão um pouco diferente.

Em primeiro lugar, não é verdade que para estimular um jovem a se tornar leitor é fundamental que a família seja leitora. Os pais não precisam ler nada. O que precisam fazer é, simplesmente, possibilitar a seus filhos o acesso aos livros, seja levando o jovem a uma biblioteca, seja comprando os livros sugeridos pela escola ou outros do interesse do filho. Se um pai disser pro filho que nunca leu nenhum livro na vida e que nem por isso deixou de se dar bem profissionalmente aí, sim, estará matando um leitor.

Segundo e talvez o mais importante, uma verdade que ninguém percebe: o vestibular não precisa ser o termômetro pro ensino de Literatura na escola. Não estou dizendo que o professor pode solicitar outras leituras além das exigidas pelo vestibular. É claro que ele pode e consegue fazer isso, se quiser. Ao longo de três anos (pensando no Ensino Médio, época em que a Literatura é trabalhada de forma mais sistematizada), é possível incluir na lista de leituras obras que não aparecem no vestibular, como de autores estrangeiros (sempre trabalhei Voltaire, Sófocles, Shakespeare, entre outros) ou de jovens autores (quando trabalhei com meus alunos Mãos de Cavalo, do Daniel Galera, um deles chegou a dizer que aquele havia sido o melhor livro que um professor tinha solicitado que eles lessem). Autores assim não atrapalham a leitura das obras exigidas pelo vestibular. Pelo contrário, até ajudam, afinal, como entender a irracionalidade de Bentinho ao lembrar de Otelo sem ter lido o clássico de Shakespeare?

Agora, há um elemento na prova de Literatura da maioria dos vestibulares que os professores normalmente não percebem, muito menos os jornalistas, sem querer ofender ninguém aqui. Para constatar isso, basta pegar uma prova da UFRGS (vou usá-la como exemplo porque é com ela que tenho mais intimidade, embora seja fácil perceber que ocorre da mesma forma em outros vestibulares). Pra quem não sabe, o programa da prova de Literatura do vestibular da UFRGS contempla os principais autores da cronologia da História da Literatura Brasileira, além de quatro autores portugueses, e também apresenta uma lista de 12 leituras obrigatórias, leituras que certamente aparecerão na prova e que abrangem, normalmente, 50% das 25 questões da prova. Ou seja, essa lista é um presente para o candidato, já que ele sabe que aquelas leituras serão cobradas, enquanto o resto das questões é um mistério.

Diante disso, alguma questão cobra as características de qualquer autor ou período literário? Não! Ok, às vezes aparecem questões em que o candidato precisa saber apenas o nome de alguns livros de um determinado autor, mas isso é raro e não chega a ser grave. Questões assim servem para eliminar aqueles candidatos que estão disputando os cursos mais concorridos. Alguém pode argumentar que isso exige uma decoreba por parte do candidato. Por um lado, é verdade. Por outro, mesmo sem ter lido Memórias Póstumas de Brás Cubas, é importante que o candidato saiba que se trata de uma obra fundamental de Machado de Assis.

A maioria das questões do vestibular da UFRGS, porém, apresenta um poema ou um excerto de poema, ou um trecho de um conto, novela, romance ou crônica, e exige do candidato que demonstre compreensão do que está ali apresentado nas afirmações que devem ser identificadas como corretas e incorretas nas alternativas apresentadas. Não é necessária a leitura da obra completa para que o candidato consiga responder a questão, porque ela está perguntando o que está descrito naquele trecho, só naquele trecho. É claro que se o candidato leu a obra cobrada na questão, provavelmente terá mais facilidade para respondê-la, mas mesmo questões que envolvem leituras obrigatórias são frequentemente apresentadas do jeito que descrevi no início deste parágrafo e é por isso que escuto muito que às vezes basta ler um resumo da leitura para responder a questão. Na realidade, às vezes nem o resumo é necessário.

O problema do ensino de Literatura é semelhante ao da Língua Portuguesa. Os professores de Língua obrigam seus alunos a compreender funções sintáticas, normalmente a partir da 7ª série do Ensino Fundamental, mas elas não são cobradas na prova de Língua Portuguesa da UFRGS. Por que então exigir do aluno que ele saiba identificar a diferença entre um adjunto nominal e um complemento nominal se isso não aparece no vestibular e se nem os gramáticos conseguem chegar a um consenso sobre o tema?

A Literatura, assim como a gramática da Língua Portuguesa, é ensinada de maneira matemática, como se tivesse lógica. Os alunos decoram a sequência dos períodos literários e suas respectivas características antes de ler a obra dos autores de cada período. Depois, são cobrados a identificar aquelas características nos textos. E, pior, ficam com a impressão de que termina um período e começa outro: como explicar que Realismo, Naturalismo, Parnasianismo e Simbolismo são períodos coetâneos? Ou, pior ainda, como explicar que Machado de Assis é realista se o seu já citado Memórias Póstumas, que deu início ao Realismo no Brasil, é narrado por um morto? Ora, Machado de Assis não se via como um realista. Chegou, inclusive, a ironizar o Realismo várias vezes em alguns de seus textos críticos…

Então, é incorreta a pergunta “por que exigir leituras importantes que não atraem o interesse dos alunos?” A reflexão que deve ser feita é como trabalhar essas leituras. Elas não precisam ser substituídas. O que deveria ser feito é mais simples do que parece: ler, exclusivamente. O professor de Literatura deveria ser um professor de leituras, um orientador de discussões com base nas leituras por ele propostas. Sem discussão em cima do que é lido, o texto torna-se chato, e o aluno não compreende o que está lendo. A aula de Literatura deveria ser uma aula de leitura em conjunto. Assim, lendo e parando para refletir sobre o que foi lido, discutindo e iluminando o que foi lido, o texto só será visto como chato e incompreensível se o professor for incompetente.

E reitero que o professor deve, sim, indicar as leituras que devem ser cobradas, sim, em avaliação. Mas antes da realização desta, o debate é necessário e fundamental. Sobre esse tópico, discordo do Alexandre Rodrigues, que escreveu em um de seus posts:

“A professora foi bem honesta conosco: “São chatos, mas importantes” [os livros por ela sugeridos]. Ela, porém, tinha mais um truque: a cada livro chato lido, podíamos escolher um qualquer para ler e resenhar. Vinte mil léguas submarinas foi meu primeiro. Viagem ao centro da Terra, o segundo. O conde de Monte Cristo, o terceiro. A alternância funcionou. Uma turma quase inteira de leitores se formou assim. É o máximo onde a escola pode chegar.”

Nenhum professor de Literatura pode afirmar para seus alunos adolescentes que é chato o livro que está solicitando que eles leiam! Isso é absurdo! Ok, o professor pode até dizer que tem restrições, que identifica alguns defeitos, que considera outros livros mais importantes ou interessantes, mas dizer que são chatos não condiz com a condição de um professor de Literatura numa escola. E que um professor experimente, hoje, dar essa liberdade da leitura livre a seus alunos: eles só lerão Paulo Coelho, J. K. Rowling, Dan Brown e outras bobagens que aparecem na lista de mais vendidos da Veja (não que eu ache a Rowling uma bobagem, afinal ela está muito distante do Brown e do Paulo Coelho, mas tem coisa melhor). Duvido que um aluno, atualmente, pegasse os livros citados pelo Alexandre de livre e espontânea vontade.

E isso que sua professora fazia não “é o máximo onde a escola pode chegar”. Para realmente estimular a leitura e formar leitores, a escola precisa rever seus programas curriculares e apoiar uma transformação na forma de se trabalhar a leitura. Quanto mais se lê, mais fácil fica interpretar qualquer questão de vestibular, inclusive das provas de exatas. Não se instiga o gosto pela Literatura com base nos períodos literários ou em características dos autores desses períodos. Por isso, ler com o aluno é a tarefa que deveria ser executada por qualquer professor no Ensino Médio. E assim qualquer aluno vai acabar apreciando Vinte mil léguas submarinas, Viagem ao centro da Terra e O conde de Monte Cristo. E qualquer professor poderá trabalhar obras que, de outra forma, seriam censuradas. Seriam, não: algumas estão sendo, como os poemas do Joca Reiners Terron na coletânea Poesia do Dia, da Ática (como apontou o CA), ou as Aventuras Provisórias, do Cristovão Tezza (ok, talvez isso não seja censura, mas um sinal claro de que está errado o ensino de Literatura praticado nas escolas Brasil afora).

Se o aluno quiser estudar mais Literatura, ele vai acabar cursando Letras e aí, sim, vai estudar a cronologia, a História da Literatura, a teoria e a crítica literárias. Mas qual deveria ser o objetivo da escola: formar leitores ou especialistas em História da Literatura? Demonstrar por que Machado de Assis é tão bom ou fazer os alunos decorarem que não fica claro que Capitu traiu Bentinho?

Ok?! Ok.

16/01/2009

Ano novo, língua nova

Muita gente anda preocupada com a reforma ortográfica. Sinceramente, eu não estou nem aí. Quer dizer, sei que isso vai mudar muita coisa, mas não acho que seja motivo pra tanto alarde. Em princípio, sou contra a reforma, por motivos variados, mas acho que vamos precisar de alguns anos pra ter certeza de que ela é boa ou ruim.

Uma das coisas mais inteligentes que li até agora foi o que escreveu a Carol Bensimon em seu blog Kevin Arnold para dois. Nós, estudiosos da língua ou membros de uma elite que domina o padrão culto, não podemos reclamar da reforma só porque vamos ter de controlar o que está sendo alterado. Diz a Carol: “o sujeito simplesmente diz que se negará a deixar de lado a velha ortografia para adotar a nova. O que enxergo aí é bem claro: quem domina o código linguístico não quer ver o seu poder enfraquecido frente a mudanças que ele ainda não domina. Além disso, a maioria não quer se esforçar nem um pouco para manter a posição que conquistou.” Bingo! É por isso que essa elite tem razão ao reclamar que a língua não pode ser alterada através de leis. Pode parecer papo de lingüista, mas não é, e, acredito, nem preciso explicar por quê. (Sei que agora devemos escrever “linguista”, porque o trema deixa de existir na nova ortografia, mas ainda não a adotei, porque podemos utilizar a velha ortografia por mais um tempo. Ou seja, ainda não é crime não usar a nova — afinal, a língua é regida por uma lei.)

Pra finalizar: na última segunda-feira, participei, junto com o jornalista Julio Ribeiro,  do programa Coffee Break, da rádio Band News RS, comandado pelo Guilherme Baumhardt. Uma das coisas que comentei era que a reforma vai gerar uma transformação no mercado editorial, e que vai se acabar gastando grandes quantias que poderiam ser utilizadas de outra forma. A meu ver, mesmo com o governo investindo mais do que nunca em educação, antes de reformar é preciso construir. E a construção continua capenga…

17/12/2008

Entrevista desafiadora

Um dos gêneros mais interessantes e menos estudados dentro da academia é a entrevista. Aliás, tenho a impressão de que ela nem é considerada um gênero literário. Nunca vi ninguém referir-se à entrevista dessa forma. Mas devia ser diferente. Não estou falando de entrevistas tolas, com alguma celebridade indicando o livro que está lendo ou o que gosta de fazer aos domingos. Não estou falando de entrevistas em que nos deparamos com a reflexão de algum intelectual sobre algum assunto muito específico, sei lá, algo como o ataque às torres gêmeas. Penso naquelas entrevistas em que o indivíduo é questionado sobre questões relativas a seu trabalho, à sua experiência. Naquelas em que, mesmo diante de perguntas simples, ele consegue dissertar como se estivesse desenvolvendo uma tese ou um ensaio, defendendo uma idéia, apresentando reflexões que desafiam o leitor, desafios muito maiores do que os que ele próprio, o entrevistado, pode estar enfrentando ao tentar responder as perguntas de maneira clara, lógica, objetiva, inteligente.

Não faltam exemplos desse tipo de entrevista reunidos em livros: a Companhia das Letras publicou no final dos anos 80 dois volumes com entrevistas da revista Paris Review. Com o título de Os Escritores, gente como T. S. Eliot, William Faulkner e Jorge Luis Borges respondia a perguntas que já obrigariam elas próprias a fazer o leitor pensar. Agora, a mesma editora lançou um livro de entrevistas realizadas pelo norte-americano Philip Roth. Entre nós reúne depoimentos de Milan Kundera e Primo Levi, entre vários outros (confesso não ter lido ainda, mas deve seguir a mesma linha). As entrevistas de Antonio Candido para Luiz Carlos Jackson reunidas em A Tradição Esquecida são uma aula sobre vida, literatura e sociologia.

Mas escrevo esse post para pensar um pouco sobre a entrevista do Daniel Galera para o Fórum Virtual de Literatura e Teatro, site vinculado ao Programa Avançado de Cultura Contemporânea (PACC), da UFRJ. Já falei da minha admiração pelo Galera por aqui, já li ou vi outras entrevistas dele, mas creio que esta tem algo que precisaria ser pensado por todo jovem professor de Literatura. Penso nos jovens porque são quem normalmente têm os julgamentos mais definidos na cabeça a respeito do que é a Literatura, mesmo tendo consciência de que ela não pode ser julgada. Reproduzo um trecho:

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Daneila Birman: Sua personagem Anita se opõe fortemente à idealização da literatura. Após ter alcançado sucesso logo no seu livro de estréia, ela perde o interesse pela escrita e critica em seus amigos argentinos a seriedade excessiva com a qual eles encaram a literatura. Você percebe esta idealização na vida literária brasileira hoje? Isso o incomoda?

Daniel Galera: Percebo e me incomoda. Não gosto muito da literatura vista como essa entidade acima do bem e do mal, um prédio majestoso ao qual autores merecedores terão a honra de acrescentar um quarto ou, pior, no qual qualquer pessoa que digite algumas páginas e as chame de literatura poderá construir seu puxadinho. Não acredito na importância desse prédio, talvez nem mesmo em sua existência. Eu vejo a literatura como uma experiência que se renova em cada leitor e autor, a partir de uma necessidade. A literatura é uma grande cidade que se espalha, não um palácio que se ergue em direção ao céu. Autores, críticos e grupos literários que decretam sua auto-importância à sombra desse palácio fajuto me irritam, e leitores que julgam a literatura pelo prisma dessa idealização tola me irritam mais ainda. Não gosto de gente que fala em nome da literatura. Antipatizo imediatamente com quem julga ter autoridade para se manifestar por ela. “Porque a literatura busca isso”, “A literatura é aquilo”, “A literatura deve…”, “A literatura precisa de…” Gosto de pessoas que falam de livros, de cenas emocionantes, de parágrafos que mudaram suas vidas, de frases que as fazem gargalhar ou cair em silêncio profundo sempre que são lembradas, de palavras maravilhosas, de figuras de linguagem que parecem conter verdades imensas que não podem ser expressas de nenhuma outra forma.

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As declarações do Galera deveriam ser lidas nas cadeiras de Teoria da Literatura nos cursos de Letras. Elas ajudariam a eliminar boa parte dos equívocos em torno da figura do autor e da obra literária. Ora, nenhum autor escreve movido por um sentimento de grupo. Pelo menos não deveria ser assim. (Claro, alguém pode lembrar do Modernismo Brasileiro. Aí faço a pergunta: qual é a grande obra dos modernistas? Macunaíma? Não me façam rir porque o assunto é sério. Se considerarmos o Modernismo puro, ou seja, o da década de 20, não há uma grande obra, não há nem uma obra digna de figurar ao lado de Memórias Póstumas de Brás Cubas, Grande Sertão: Veredas, São Bernardo ou Claro Enigma.)

O verdadeiro autor de Literatura sabe que ela “contém verdades imensas que não podem ser expressas de nenhuma outra forma”. E por isso, críticos e professores não podem acreditar que são os porta-vozes da Literatura. Nossa tarefa é pensar sobre ela, tentar explicá-la, mas nunca acreditar que a nossa noção sobre o que é a Literatura é a única correta. Quem pensa dessa forma vai acabar quebrando a cara, mais cedo ou mais tarde. E estão fadados ao fracasso e ao esquecimento os autores que encaram a Literatura como uma “entidade acima do bem e do mal, um prédio majestoso ao qual autores merecedores terão a honra de acrescentar um quarto ou, pior, no qual qualquer pessoa que digite algumas páginas e as chame de literatura poderá construir seu puxadinho”.

Quando a Literatura deixar de ser tratada como uma entidade (porque ela é tratada assim pela maioria das pessoas, sejam leigos ou especialistas) e quando a Literatura deixar de ser encarada com o caráter escolar que ainda possui no país, talvez tenhamos uma sociedade mais inteligente com menos desigualdade e menos barbárie. Mas isso já mereceria outro post, que fica pra outra hora.

24/11/2008

Como era bom ser garoto…

Minha Aldeia

No último fim de semana arranjei um tempo para ler Minha aldeia, novo livro do meu colega e orientador Luís Augusto Fischer (R$ 15,00, o livro está sendo lançado por uma editora nova, de Caxias do Sul, a Belas Letras). O texto é claramente voltado para jovens de 12, 13 anos, mas fiquei com uma sensação esquisita, que já senti outras vezes. É assim uma espécie de dor por não ter lido isso antes. Ter lido esse texto antes seria impossível, porque o livro foi lançado agora. Mas a idéia é justamente essa.

Explico: eu tinha uns 22 anos quando li pela primeira vez O Apanhador no Campo de Centeio, do J. D. Salinger. Gostei muito, mas fiquei com a mesma sensação: devia ter lido esse texto antes. Quando comecei a dar aulas para 5ª e 6ª séries, li alguns textos que nunca havia lido: As aventuras de Tom Sawyer, de Mark Twain, e O Mágico de Oz, do Lyman Frank Baum, por exemplo. Li porque queria trabalhar esses textos com os alunos. Era meu primeiro emprego numa grande escola de Porto Alegre, salário bastante atraente, ótima estrutura de trabalho, enfim, uma chance muito boa. E eu preferia trabalhar com textos que não fossem adaptações de obras clássicas. Não que eu seja totalmente contra adaptações. Já fui mais radical com relação a isso, mas hoje não tanto. Só continuo achando que há livros destinados a todas as idades e que não tem muito sentido trabalhar a Odisséia adaptada se os alunos não leram ainda O Médico e o Monstro, que pode ser lido tranqüilamente no original traduzido. Nisso, ganhei bastante apoio da equipe pedagógica e consegui realizar um bom trabalho.

O Apanhador eu li porque queria ler, mas, com esses outros que citei, fiquei com a mesma sensação de que devia ter lido antes, porque teria aproveitado melhor a leitura, porque teria me encantado mais, porque talvez hoje eu fosse um leitor melhor do que sou. Quando comecei a ler de maneira assídua, lá pelos 14, 15 anos, fui direto a obras consagradas da literatura adulta: Hamlet (Shakespeare), Édipo Rei (Sófocles), Memórias Póstumas de Brás Cubas (Machado de Assis), A Ferro e Fogo (Josué Guimarães), O Continente (Érico Veríssimo)… Eu não era um autodidata ou um adolescente metido a intelectual: essas foram algumas das leituras que fiz a pedido dos professores entre a 8ª série e o 2º ano do Ensino Médio (na época, 2º Grau). Foi graças a esses professores que aprendi a gostar de ler, porque tive de ler ótimos livros. Não que minha família não nos incentivasse, a mim e a meu irmão. Dinheiro pra livros nunca faltou. Mas o gosto pela literatura veio pelas mãos dos mestres, mesmo.

No entanto, essa novela do Fischer traz mais do que uma simples sensação do tipo “devia ter lido antes”. Ela consegue captar essas emoções de aprender coisas novas, de descobrir mundos novos, que vão se perdendo à medida que ficamos adultos. O protagonista da narrativa (em 3ª pessoa) chama-se Felipe: tem 12 anos, mora numa cidade do interior chamada Conceição do Arroio e, como todo adolescente do século XXI, tem muitas perguntas, e normalmente não encontra respostas para a maioria delas. Já no primeiro capítulo, somos jogados no meio de uma aula de Geografia, com Felipe perguntando “Tá, professora, eu entendi, mas aqui não tem nada que seja maior?” Só lá pela metade desse primeiro capítulo é que vamos conhecer quem é o Felipe e por que ele faz esse tipo de perguntas. Em seguida, a família do Felipe vê-se obrigada a mudar-se para a capital, o que gera angústias e emoções variadas, afinal ele se distanciaria dos amigos, dos parentes mais próximos e da quase namorada para conhecer e viver uma cidade que, esta sim, aparecia nos mapas de Geografia e História, com todas as conseqüências de se morar numa cidade grande e nova (além dos novos amigos, do novo colégio, ter de lidar com a violência, por exemplo).

Fischer consegue conduzir a narrativa de forma leve, bem humorada, criando a tensão necessária e realista. É quase como se o texto tivesse sido escrito por um jovem de 12 anos, embora seja difícil encontrar alguém com talento para tanto nessa idade. O que quero dizer é que, se não estou enganado, não há garoto ou garota que não vá gostar dessa história. E mesmo para nós, adultos, ela ajuda a recuperar muito da inocência que se perdeu na época em que qualquer lugar podia se transformar no melhor lugar do mundo. Depois farei o teste com meu irmão que está chegando aos 10 anos e conto pra vocês…

05/08/2008

Como é bom ser o centro das atenções…

19 jul
Marcelo Frizon
Anônimo
Acho que vai ser inevitável e queria saber como é.

19 jul
Anônimo
Dizem que o melhor momento da aula dele é quando acaba

24 jul
Anônimo
Nossa, que incentivo!!

30 jul (6 dias atrás)
Rosa Elemental
Não tive aulas com ele.
Mas os comentários que ouvi nos dois últimos semestres me fizeram não querer experimentar.

15:42 (6 horas atrás)
Anônimo
Eu até gostei
Muito melhor do que aturar o seboso do Fischer ou as taradices do Seben. O Frizon dá muitos textos críticos interessantes. Se quiser se dar bem, vá ler os livros, porque ele não dá nada mastigado, não escreve no quadro e não contribui muito para possíveis anotações. Eu diria que ele é mais um orientador do que um professor, do estilo “quer aprender? Se vira!”.

Os comentários acima foram retirados de uma comunidade do Orkut chamada Professores – Letras / UFRGS. Alguns colegas meus andam irritados com ela. O dono da comunidade respondeu sabiamente a um desses comentários e o reproduziu na comunidade.

O Orkut, como diversos outros serviços da Internet contemporânea, tem ferramentas que podem ser muito úteis, como poder reencontrar amigos, não esquecer datas de aniversário e criar comunidades sobre qualquer assunto. E como estamos num país livre, todo mundo tem o direito de criar uma comunidade assim. Só acho uma pena que os comentários anônimos são permitidos. Eu sou da opinião de que cada um deve dar a cara pra bater quando está defendendo seus argumentos. Dos cinco comentários acima, apenas um está assinado, de uma pessoa que não teve aula comigo. De qualquer forma, eu não responderia a nenhum dos comentários. Não acho que eu deva me meter.

Criticar professores é uma prática muito comum entre os alunos. Aliás, é uma prática comum também entre os próprios professores. Quando eu era estudante no colégio e na UFRGS, era comum discutirmos a qualidade da aula e também, especialmente na universidade, vermos professores questionarem o método de seus colegas. Acho que é algo que deve ocorrer em qualquer profissão, no final das contas.

Mas o que eu queria registrar sobre o assunto não é isso.

Nenhum professor tem (ou pelo menos não deveria ter) a ilusão de que vai agradar todos seus alunos. Num curso como a Letras, onde estamos formando professores (além de bacharéis — e muitos destes acabam tornando-se professores), isso é pouco debatido. Aliás, é algo pouco debatido também nas cadeiras da Educação. Aí cabem duas perguntas: 1) como tornar a aula mais interessante pro aluno? No fundo, só se descobre isso na prática, ou seja, dando aula. 2) um curso de licenciatura transforma realmente o graduando em professor? Hummm… Essa é uma resposta difícil. Ajuda, certamente. Mas eu compartilho da idéia do mestre Paulo Guedes: a formação de um professor é determinada pela experiência que esse futuro professor teve com seus professores. Em outras palavras, todo professor aproveita para a sua própria formação (às vezes de maneira inconsciente) a forma de conduzir uma aula com os professores que lhe formaram, inclusive os maus professores.

O objetivo de todo professor ao ministrar suas aulas deve ser ensinar bem e de maneira interessante. Em outras palavras, o professor precisa tocar seus alunos. Pode parecer um comentário piegas, mas é por aí. E no momento em que um professor consegue tocar um aluno, apenas um, ele já sente que cumpriu seu dever. Pode parecer mediocridade, mas não é, especialmente se pensarmos que estamos num país onde educação de qualidade é privilégio de poucos e mesmo entre esses poucos são pouquíssimos os que valorizam realmente a educação. Isso ocorre inclusive na universidade.

Pra ilustrar o argumento: eu costumo contar em aula a história de um colega que se formou comigo na Letras da UFRGS (eu na Licenciatura, ele no Bacharelado) orgulhando-se de não ter lido nada durante o curso todo. Pode parecer absurdo ou impossível, mas não é. Gente medíocre e malandra existe em qualquer lugar. É claro que essa pessoa acaba se tornando um péssimo profissional e que o mercado de trabalho vai acabar ejetando esse tipo de gente. (No caso do meu colega, confesso que não sei o que ele está fazendo.)

Eu mesmo admito que não soube aproveitar bem a maior parte das aulas que tive na universidade. Eu entrei lá muito jovem, imaturo, inexperiente, e foi ela que me ajudou a crescer. No primeiro semestre, tive aulas com a professora Bina Maltz, na disciplina que hoje é a Literatura Brasileira A (conteúdo: do descobrimento do Brasil ao fim do Romantismo). A Bina falava muito, não gostava de ser interrompida, e ficava sempre sentada. Quando alguém queria participar, ela dava espaço, mas aproveitava apenas o que realmente valia a pena. Os comentários imbecis eram praticamente ignorados, o que fazia com que não ficássemos com a impressão de que ela estava sendo agressiva ou deselegante. Alguns semestres depois, fiz, novamente com a Bina, Literatura Dramática Brasileira (uma cadeira sobre a produção de literatura teatral no Brasil). Quanta diferença! O problema do primeiro semestre logicamente não era a Bina, era eu, que não conseguia ainda acompanhar o raciocínio dela, seu ritmo e, principalmente, uma discussão realmente teórica sobre Literatura, visto que no colégio as noções de Teoria da Literatura são muito superficiais (e não precisa ser diferente, pelo menos não muito). Eu era um jovem saindo da adolescência. Não sabia nada da vida. Entrei na Letras porque gostava de Português e Literatura, porque gostava de ler, mas não imaginava o que teria pela frente. A Bina acabou revelando-se uma das melhores professoras que tive.

Através de uma ferramenta do Portal do Servidor da UFRGS, temos acesso a comentários dos alunos a respeito das aulas do semestre. Os comentários são opcionais, escreve quem quer (e normalmente os alunos que gostaram da cadeira não se manifestam). Além disso, lá são obrigatoriamente anônimos, pelo menos é o que parece, e acho que ali deve ser assim mesmo, já que é um espaço oficial para comentar as aulas do semestre e é algo que não é público, ou seja, ninguém além do próprio professor vai ler o que seus alunos comentaram — aliás, às vezes nem o próprio professor lê — porque o objetivo ali é unicamente sugerir melhorias e elogiar as qualidades da aula de cada professor. Por isso tudo, então, reproduzo alguns trechos que lá estão a respeito das minhas aulas do semestre passado:

1) No início eu achei a quantidade de leitura exagerada. Depois, além de ter dado conta de tudo, achei que realmente não tinha como ser diferente…
O Professor Marcelo é muito interessado e dedicado. Foi um prazer ter aula com ele.

2) Demonstrou durante todo o semestre não estar preparado para dar aulas. Sua didática é muito pobre no que tange a disciplina. Faltava motivação, entusiasmo, sendo que muitas vezes até um desencorajamento na leitura das obras. Não consigo entender como um professor deste nível consegue ser aprovado por um processo e venha a dar aulas na UFRGS. Os conteúdos, ou melhor, a falta de conteúdos das aulas eram compensados por uma prova muito bem elaborada, mas que estavam em discordância com o que foi visto.

3) (…) Outro assunto que deveria ser evitado é a respeito do ensino de Literatura no Ensino Médio. Ainda que a maioria dos alunos de Lit Bra C seja de Licenciatura, esse espaço é para se tratar de LITERATURA. O resto vai ser discutido no lugar certo, que é a FACED, nas disciplinas que existem exatamente para isso. Quem é do Bacharelado não precisa acordar cedo para chegar na aula e ouvir 30 minutos de discussão sobre algo com o qual simplesmente não se importa.

É interessantíssimo como um mesmo professor pode gerar comentários tão díspares como os acima, especialmente os dois primeiros. Com relação ao terceiro, acho que vale a pena refletir um pouco.

Infelizmente, a Faculdade de Educação da UFRGS (FACED) não têm especialistas no ensino de Literatura. Aliás, não têm especialistas no ensino de nenhuma licenciatura. A discussão por lá é mais teórica, focada no processo didático, no ensino-aprendizagem, nas teorias da educação, etc. Se os professores de Literatura não discutirem o ensino de Literatura, quem o fará de maneira decente?

E um bacharel que não se interessa pelo assunto deve ser um bacharel parecido com o meu colega que não leu nada durante o curso. Afinal, o trabalho do bacharel, o trabalho do tradutor e do intérprete depende da educação. Se não discutimos o ensino de Literatura, não temos ferramentas suficientes para dar aulas sobre o assunto e acabamos formando leitores medíocres ou nem acabamos formando leitores, o que torna o trabalho dos bacharéis completamente inútil, afinal ninguém leria o que foi traduzido porque ninguém teria interesse. É por causa de um argumento como esse (terceiro) que a profissão de Bacharel em Letras não é regulamentada (pra quem não sabe, qualquer pessoa pode traduzir um livro, por exemplo, porque a legislação brasileira não obriga que o profissional seja formado em Bacharelado em Letras, e isso é uma das grandes tristezas dos bacharéis, é algo que sempre é pateticamente comentado pelos oradores nas formaturas — é claro que se a legislação mudasse o Brasil perderia pelo menos 80% dos seus melhores tradutores). Eu costumo dizer pros meus alunos que ser um médico é muito bom, mas ser um médico culto é muito melhor. O mesmo vale pros bacharéis em Letras.

Pra finalizar, pelo menos por enquanto, é muito bom ser o centro das atenções. Confesso que, depois de dois semestres dando aulas na UFRGS, eu já estava um pouco frustrado por não ter visto meu nome circular na famigerada comunidade (famigerada para alguns colegas, claro).