Direto do Twitter

04/07/2010

Cachalote e minhas ânsias

Cachalote, de Daniel Galera e Rafael Coutinho, é, desde já, um dos melhores lançamentos literários do ano. Digo que se trata de literatura, porque esse é o tratamento dado por Galera e desenhado por Coutinho. Sim, trata-se de uma graphic novel, caso você ainda não saiba.

São cinco (ou seis?) histórias que não se cruzam, mas se completam quase como se dependessem umas das outras. É difícil dizer exatamente qual é o tema principal do livro. Solidão, talvez. Separação também… Alguns podem dizer depressão… O certo é que, independente do assunto, não há como não se encantar com cada trama. O desenho de Coutinho transforma o roteiro de Galera em uma experiência sensorial impactante: terminei a leitura em poucas horas e não parei de pensar na vida, nas coisas que estou fazendo, no que quero pra mim. Um livro que faz você pensar assim é, sem exagero, um grande livro.

Sou fã do Galera desde o início do Cardosonline. A primeira vez que ouvi falar dele foi na aula do professor Paulo Seben, na UFRGS. Na época, o Seben era substituto de Leitura e Produção Textual (hoje, ele é adjunto de Literatura Brasileira). Ele ministrava a mesma cadeira na Fabico e na Letras. Naquela, era professor do Galera e de outros futuros integrantes do COL. Nesta, era meu professor e de mais um grupo de alunos que hoje está dando aula em colégios, cursinhos e faculdades. E ele costumava levar os melhores textos de uma turma para a outra ouvir. E o conto “Triângulo”, que seria publicado no primeiro livro do Galera, Dentes Guardados, foi lido pelo Seben na minha turma. Não sei se foi por causa da leitura tendenciosa do Seben, que já sabia a entonação que queria dar em cada frase, mas o fato é que foi encantamento à primeira audição (seria melhor se tivesse sido leitura, mas o Seben não nos distribuiu cópias do texto).

Desde então, sempre prestei muita atenção na produção do Galera. Acompanhei o lançamento da Livros do Mal, editora criada por ele, pelo Mojo e pelo pelo Guilherme Pilla, e guardo como relíquia os dois primeiros livros da editora (porque se tornaram relíquia, realmente). Fiquei muito contente quando ele publicou Mãos de Cavalo, seu primeiro livro pela Companhia das Letras, que reeditou Até o dia em que o cão morreu, lançado antes pela Livros do Mal. E a Companhia também publicou Cordilheira, único texto do Galera de que não gostei muito (embora tenha passagens muito boas, a trama não me agradou; isso acontece com uma certa frequência quando leio livros feitos sob encomenda, como é o caso deste, que foi o primeiro da coleção Amores Expressos, da Cia.).

Além de acompanhar as publicações, leio matérias e entrevistas sobre o Galera e adotei o Mãos de Cavalo no ano de seu lançamento com os meus alunos de 1º ano da época. Quando dei aula na UFRGS, pedi aos alunos que lessem alguns contos de Dentes Guardados. Agora que voltei a dar aula em colégio, meus alunos de 1º e 2º anos vão ler o Mãos de Cavalo. Parece obsessão, mas não é.

No prefácio para a nova edição de Caminhos Cruzados, de Erico Verissimo, Antonio Candido escreveu que, na década de 30, uma das maiores ansiedades dele e de seus amigos era aguardar os lançamentos de Erico, Graciliano Ramos, Jorge Amado e de outros escritores que estavam publicando seus primeiros livros naquele instante. Não estou comparando Galera ao Erico, e muito menos me comparando a Antonio Candido, mas a sensação que tenho é a mesma. Sinto ansiedade para ler os novos livros de Galera, Mojo, Tatiana Salem Levy, Marcelino Freire, Antonio Xerxenesky, Michel Laub, Carol Bensimon e de vários outros autores vivos. Ansiedade de ler o que ainda nem escreveram. Pode? Acho que sim.

Eu gostaria de ler até mais do que já li dessa geração, mas o trabalho e os estudos impõem algumas leituras mais clássicas que desviam minha atenção. Mesmo assim, meu projeto de doutorado é uma revisão do que foi, do que significou e das consequências do Modernismo no Brasil, ou seja, algo pouco explorado nos estudos acadêmicos. Num exemplo mais concreto: eu amo Machado de Assis, mas não teria paciência pra escrever sobre ele, porque já tem tanta coisa escrita que precisa ser lida antes de se encontrar uma ideia nova sobre Machado… Muita gente escreve sobre Machado. E muita gente vai continuar escrevendo sobre ele. De mão levantada, pergunto, então, quem vai escrever sobre os novos? E, principalmente, quem vai ler os novos?

Leia Cachalote.

PS: assim que tiver tempo, escreverei mais sobre Cachalote e sua relação com a literatura do Mojo, que vai citado no livro de Galera e Coutinho. Tenho a sensação de que ninguém percebeu. Pelo menos, não vi ninguém comentar. Será que estou vendo coisas?

22/02/2010

Resposta aberta: mais Nei Lisboa

Caro João,

resolvi escrever um post porque minha resposta pra tuas colocações estava ficando muito longa. Então vamos lá.

Obrigado pela correção quanto ao Paixão Cortes. Eu confesso que não sou muito ligado na cultura tradicionalista, por isso o equívoco, mas me interesso por essas discussões a respeito da identidade gaúcha. De qualquer forma, já corrigi o erro no post.

Concordo que cada um pode pensar o que quiser e manifestar isso como e onde achar melhor. Realmente, Porto Alegre e o resto do Rio Grande do Sul têm espaços variados pra todo tipo de manifestação cultural, o que é muito bom.

Agora, você escreveu de maneira um pouco dispersa, me parece, então vou ser um pocuo disperso também e pontuar o que me chamou mais atenção:

1) Quando o Nei Lisboa disse que não gosta do Teixeirinha? Onde? Não foi na tal entrevista da ZH. Ou foi? Ele disse: “A música da minha terra, que eu ouvia de criança, o Teixeirinha, por exemplo, nunca me seduziu a ponto de eu profissionalmente produzir alguma coisa com ela. Tudo em torno dela me parece muito ruim, estética, ideológica e musicalmente. Isso inclui sobretudo o que o tradicionalismo tem feito com a música do Rio Grande do Sul nas últimas décadas. Eu comecei a me lançar na virada dos anos 1970 para os 1980, quando foi também o boom dos festivais, do tradicionalismo. E foi também, no começo dos 1980, que o rock brasileiro começou a mandar na cena. Enfim, que identidade musical a gente tem aqui em Porto Alegre? Há uma dificuldade nessa matéria.” Ele não disse que não gosta do Teixeirinha. Ele o ouvia quando criança. Só porque ele considera a música tradicionalista ruim estética, ideológica e musicalmente, não significa que ele não aprecia o Teixeirinha ou qualquer outro compositor da corrente. Reproduzi mais algumas frases aí porque trato do assunto abaixo.

2) Um dos problemas do Paixão Cortes e do Barbosa Lessa era a americanização que estava tomando conta do estado e do país. Na época em que eles idealizaram o MTG, a coca-cola estava entrando em larga escala no mercado brasileiro. Em São Paulo e no Rio, o modernismo já era reconhecido como o grande movimento artístico e cultural brasileiro. O próprio Paixão Cortes já contou essa história. Então, a briga é muito mais com a McDonaldização do mundo (expressão que o Luís Augusto Fischer criou e usa correntemente), que, de certa forma, ganhou uma contribuição do modernismo pra que se firmasse pelo país.

3) Sendo assim, está aí mais uma prova de que o MTG foi inventado. Ok, até aí quase nenhum problema, porque a maioria das tradições ao redor do mundo foram inventadas. Mas quando um grupo de tradicionalistas não aceita que alguém lembre que o movimento se transformou em atração turística com objetivos meramente financeiros e especulativos, chegando ao ponto de fazer ameaças de morte (ok, talvez estivesse brincando o cara que escreveu que faria com Nei o mesmo que aconteceu com o irmão dele, mas eu não acho que possamos brincar com a tortura da ditadura militar e seus desaparecidos políticos; isso é piada de mau gosto), a coisa parece que está fugindo do controle. E vamos combinar: a maioria das pessoas que defende as tradições gauchescas não as pratica de verdade. Ou estou errado? Na hora de gritar “Ah, eu sou gaúcho!”, é fácil reunir uma multidão, mas no dia a dia quantos cultivam as tradições? Meu palpite: menos de 10% da população.

4) E por que um número tão baixo? A resposta, a meu ver, explica também por que eu acho que o Nei Lisboa será mais lembrado que o Teixeirinha pelas gerações contemporâneas e vindouras: o mundo urbano ganhou o jogo, é a lógica urbana que rege o mundo; qualquer manifestação regional fica relegada a segundo plano, como coisa menor, mal feita. Não estou dizendo que concordo que deva ser assim nem que acho isso bom. Não é, realmente. (Seria ótimo se o povo gaúcho lesse mais Simões Lopes Neto.) E o Nei é um cantor urbano. O que ele faz é música urbana, mesmo que flerte com o pop, a mpb, o rock e até mesmo com a música tradicionalista (quem não lembra a belíssima “Exaltação”?).

5) Tentando concluir, o que eu acho errado nisso tudo é que querem nos fazer engolir uma tradição inventada, que não nos exprime. E querem fazer isso de maneira tão violenta quanto o modernismo e a americanização fizeram com a lógica urbana cosmopolista sobre a periferia do capitalismo e o mundo rural (Porto Alegre, por exemplo, é uma província até hoje, mas disso já falei; o Brasil também sempre esteve na periferia do capitalismo, só agora é que as coisas andam mudando). Aí vem a pergunta cabal: Precisa ser assim? Não dá pra achar um meio termo?

29/05/2009

Uma proposta sobre a recente discussão acerca da leitura

Uma discussão que muito me interessa e sobre a qual procuro refletir com meus alunos na UFRGS é a forma como a leitura é trabalhada na escola. Escreveram recentemente sobre o tema Sergio Rodrigues (aqui e aqui), Carlos André Moreira (aqui, aqui e aqui — este último acertando em cheio na questão), o Alexandre Rodrigues (aqui e aqui), e a Gabriela Rassy, que detonou a discussão (aqui), analisando um lançamento sobre o assunto. Todos jornalistas, todos bons e ávidos leitores, os três primeiros com blogs que se dedicam quase exclusivamente a debater livros e literatura.

A preocupação de todos é a minha também: em resumo, como estimular a leitura na escola? No entanto, por ter trabalhado anos em colégios particulares dando aulas de Literatura (e para onde, provavelmente, voltarei em breve), por estar trabalhando num curso superior de Letras em que o assunto é pensado com frequência e, enfim, por ser professor, acredito que tenho uma proposta viável para atingir o êxito no desafio ou, pelo menos, uma visão um pouco diferente.

Em primeiro lugar, não é verdade que para estimular um jovem a se tornar leitor é fundamental que a família seja leitora. Os pais não precisam ler nada. O que precisam fazer é, simplesmente, possibilitar a seus filhos o acesso aos livros, seja levando o jovem a uma biblioteca, seja comprando os livros sugeridos pela escola ou outros do interesse do filho. Se um pai disser pro filho que nunca leu nenhum livro na vida e que nem por isso deixou de se dar bem profissionalmente aí, sim, estará matando um leitor.

Segundo e talvez o mais importante, uma verdade que ninguém percebe: o vestibular não precisa ser o termômetro pro ensino de Literatura na escola. Não estou dizendo que o professor pode solicitar outras leituras além das exigidas pelo vestibular. É claro que ele pode e consegue fazer isso, se quiser. Ao longo de três anos (pensando no Ensino Médio, época em que a Literatura é trabalhada de forma mais sistematizada), é possível incluir na lista de leituras obras que não aparecem no vestibular, como de autores estrangeiros (sempre trabalhei Voltaire, Sófocles, Shakespeare, entre outros) ou de jovens autores (quando trabalhei com meus alunos Mãos de Cavalo, do Daniel Galera, um deles chegou a dizer que aquele havia sido o melhor livro que um professor tinha solicitado que eles lessem). Autores assim não atrapalham a leitura das obras exigidas pelo vestibular. Pelo contrário, até ajudam, afinal, como entender a irracionalidade de Bentinho ao lembrar de Otelo sem ter lido o clássico de Shakespeare?

Agora, há um elemento na prova de Literatura da maioria dos vestibulares que os professores normalmente não percebem, muito menos os jornalistas, sem querer ofender ninguém aqui. Para constatar isso, basta pegar uma prova da UFRGS (vou usá-la como exemplo porque é com ela que tenho mais intimidade, embora seja fácil perceber que ocorre da mesma forma em outros vestibulares). Pra quem não sabe, o programa da prova de Literatura do vestibular da UFRGS contempla os principais autores da cronologia da História da Literatura Brasileira, além de quatro autores portugueses, e também apresenta uma lista de 12 leituras obrigatórias, leituras que certamente aparecerão na prova e que abrangem, normalmente, 50% das 25 questões da prova. Ou seja, essa lista é um presente para o candidato, já que ele sabe que aquelas leituras serão cobradas, enquanto o resto das questões é um mistério.

Diante disso, alguma questão cobra as características de qualquer autor ou período literário? Não! Ok, às vezes aparecem questões em que o candidato precisa saber apenas o nome de alguns livros de um determinado autor, mas isso é raro e não chega a ser grave. Questões assim servem para eliminar aqueles candidatos que estão disputando os cursos mais concorridos. Alguém pode argumentar que isso exige uma decoreba por parte do candidato. Por um lado, é verdade. Por outro, mesmo sem ter lido Memórias Póstumas de Brás Cubas, é importante que o candidato saiba que se trata de uma obra fundamental de Machado de Assis.

A maioria das questões do vestibular da UFRGS, porém, apresenta um poema ou um excerto de poema, ou um trecho de um conto, novela, romance ou crônica, e exige do candidato que demonstre compreensão do que está ali apresentado nas afirmações que devem ser identificadas como corretas e incorretas nas alternativas apresentadas. Não é necessária a leitura da obra completa para que o candidato consiga responder a questão, porque ela está perguntando o que está descrito naquele trecho, só naquele trecho. É claro que se o candidato leu a obra cobrada na questão, provavelmente terá mais facilidade para respondê-la, mas mesmo questões que envolvem leituras obrigatórias são frequentemente apresentadas do jeito que descrevi no início deste parágrafo e é por isso que escuto muito que às vezes basta ler um resumo da leitura para responder a questão. Na realidade, às vezes nem o resumo é necessário.

O problema do ensino de Literatura é semelhante ao da Língua Portuguesa. Os professores de Língua obrigam seus alunos a compreender funções sintáticas, normalmente a partir da 7ª série do Ensino Fundamental, mas elas não são cobradas na prova de Língua Portuguesa da UFRGS. Por que então exigir do aluno que ele saiba identificar a diferença entre um adjunto nominal e um complemento nominal se isso não aparece no vestibular e se nem os gramáticos conseguem chegar a um consenso sobre o tema?

A Literatura, assim como a gramática da Língua Portuguesa, é ensinada de maneira matemática, como se tivesse lógica. Os alunos decoram a sequência dos períodos literários e suas respectivas características antes de ler a obra dos autores de cada período. Depois, são cobrados a identificar aquelas características nos textos. E, pior, ficam com a impressão de que termina um período e começa outro: como explicar que Realismo, Naturalismo, Parnasianismo e Simbolismo são períodos coetâneos? Ou, pior ainda, como explicar que Machado de Assis é realista se o seu já citado Memórias Póstumas, que deu início ao Realismo no Brasil, é narrado por um morto? Ora, Machado de Assis não se via como um realista. Chegou, inclusive, a ironizar o Realismo várias vezes em alguns de seus textos críticos…

Então, é incorreta a pergunta “por que exigir leituras importantes que não atraem o interesse dos alunos?” A reflexão que deve ser feita é como trabalhar essas leituras. Elas não precisam ser substituídas. O que deveria ser feito é mais simples do que parece: ler, exclusivamente. O professor de Literatura deveria ser um professor de leituras, um orientador de discussões com base nas leituras por ele propostas. Sem discussão em cima do que é lido, o texto torna-se chato, e o aluno não compreende o que está lendo. A aula de Literatura deveria ser uma aula de leitura em conjunto. Assim, lendo e parando para refletir sobre o que foi lido, discutindo e iluminando o que foi lido, o texto só será visto como chato e incompreensível se o professor for incompetente.

E reitero que o professor deve, sim, indicar as leituras que devem ser cobradas, sim, em avaliação. Mas antes da realização desta, o debate é necessário e fundamental. Sobre esse tópico, discordo do Alexandre Rodrigues, que escreveu em um de seus posts:

“A professora foi bem honesta conosco: “São chatos, mas importantes” [os livros por ela sugeridos]. Ela, porém, tinha mais um truque: a cada livro chato lido, podíamos escolher um qualquer para ler e resenhar. Vinte mil léguas submarinas foi meu primeiro. Viagem ao centro da Terra, o segundo. O conde de Monte Cristo, o terceiro. A alternância funcionou. Uma turma quase inteira de leitores se formou assim. É o máximo onde a escola pode chegar.”

Nenhum professor de Literatura pode afirmar para seus alunos adolescentes que é chato o livro que está solicitando que eles leiam! Isso é absurdo! Ok, o professor pode até dizer que tem restrições, que identifica alguns defeitos, que considera outros livros mais importantes ou interessantes, mas dizer que são chatos não condiz com a condição de um professor de Literatura numa escola. E que um professor experimente, hoje, dar essa liberdade da leitura livre a seus alunos: eles só lerão Paulo Coelho, J. K. Rowling, Dan Brown e outras bobagens que aparecem na lista de mais vendidos da Veja (não que eu ache a Rowling uma bobagem, afinal ela está muito distante do Brown e do Paulo Coelho, mas tem coisa melhor). Duvido que um aluno, atualmente, pegasse os livros citados pelo Alexandre de livre e espontânea vontade.

E isso que sua professora fazia não “é o máximo onde a escola pode chegar”. Para realmente estimular a leitura e formar leitores, a escola precisa rever seus programas curriculares e apoiar uma transformação na forma de se trabalhar a leitura. Quanto mais se lê, mais fácil fica interpretar qualquer questão de vestibular, inclusive das provas de exatas. Não se instiga o gosto pela Literatura com base nos períodos literários ou em características dos autores desses períodos. Por isso, ler com o aluno é a tarefa que deveria ser executada por qualquer professor no Ensino Médio. E assim qualquer aluno vai acabar apreciando Vinte mil léguas submarinas, Viagem ao centro da Terra e O conde de Monte Cristo. E qualquer professor poderá trabalhar obras que, de outra forma, seriam censuradas. Seriam, não: algumas estão sendo, como os poemas do Joca Reiners Terron na coletânea Poesia do Dia, da Ática (como apontou o CA), ou as Aventuras Provisórias, do Cristovão Tezza (ok, talvez isso não seja censura, mas um sinal claro de que está errado o ensino de Literatura praticado nas escolas Brasil afora).

Se o aluno quiser estudar mais Literatura, ele vai acabar cursando Letras e aí, sim, vai estudar a cronologia, a História da Literatura, a teoria e a crítica literárias. Mas qual deveria ser o objetivo da escola: formar leitores ou especialistas em História da Literatura? Demonstrar por que Machado de Assis é tão bom ou fazer os alunos decorarem que não fica claro que Capitu traiu Bentinho?

Ok?! Ok.

06/05/2009

Quem quer sair da ilha?

Até o final da quarta temporada de Lost, a série parecia muito realista. Acho que foi isso que atraiu a atenção de tanta gente mundo afora. Os mistérios foram sendo criados, alguns foram revelados, mas nenhum parecia um absurdo total (exceto talvez pelo monstro, conhecido como Lostzilla).

Atualmente na 5ª temporada, Lost parece ter entrado em conflito com o realismo. E, para quem acreditava que tudo tinha uma explicação clara, essa diminuição do realismo afeta o interesse pela série. Eu sou fã de Lost, mas começo perder o interesse que tinha, especialmente, até o final da terceira temporada. Isso graças a esse excesso de novidades sem lógica. Afinal, ressurreição, viagens no tempo, deslocamento geográfico para sair da ilha e para movê-la são elementos que não fazem muito sentido.

Ok, tenho que reconhecer, até porque sou professor de Literatura e lido com narrativas ficcionais todo dia, que sempre que tomamos contato com uma narrativa (um filme, um conto, um romance, uma telenovela, um poema épico, uma peça de teatro, etc), precisamos aceitar que o que está sendo contado tem a sua verossimilhança. Em outras palavras, precisamos aceitar que o mundo ficcional que nos está sendo apresentado é um mundo possível, ou que ali são possíveis fatos que não aconteceriam no mundo real, no mundo em que vivemos. De outra forma, ninguém leria a Odisséia ou Harry Potter (para ir de um extremo a outro).

O problema do realismo com relação a Lost é que estamos diante de uma série (ou seriado, como queiram) de longa duração, com um total de seis temporadas previstas, cada uma com cerca de 24 episódios, cada um com uma hora de duração — exceto pela quarta temporada, que teve apenas quatorze episódios em função da greve dos roteiristas. (Alguém aí pode argumentar que uma telenovela da Globo totaliza um número muito maior de capítulos do que Lost atingirá no final da série. Mas telenovelas são gravadas diariamente para serem exibidas diariamente e não costumam ter um enredo tão complexo e inteligente como uma série produzida nos Estados Unidos, seja ela uma sitcom ou uma série dramática, como Lost.) Ao acompanhar as três primeiras temporadas, que foram quase totalmente verossímeis — portanto, ao longo de três anos –, é natural que a diminuição do realismo na quarta temporada, que se radicalizou na quinta, afete o interesse do espectador. Acho que se tivesse ficado claro, desde o primeiro episódio, que Lost não era uma série realista, eu não estaria tão incomodado…

20/12/2008

Sergius Gonzaga matando a pau

Você não compreende por que existem leitores, críticos ou professores de literatura? Então você precisa ler o que escreveu o meu querido Sergius Gonzaga, professor da UFRGS e secretário municipal de cultura. Tá tudo resolvido…

17/12/2008

Entrevista desafiadora

Um dos gêneros mais interessantes e menos estudados dentro da academia é a entrevista. Aliás, tenho a impressão de que ela nem é considerada um gênero literário. Nunca vi ninguém referir-se à entrevista dessa forma. Mas devia ser diferente. Não estou falando de entrevistas tolas, com alguma celebridade indicando o livro que está lendo ou o que gosta de fazer aos domingos. Não estou falando de entrevistas em que nos deparamos com a reflexão de algum intelectual sobre algum assunto muito específico, sei lá, algo como o ataque às torres gêmeas. Penso naquelas entrevistas em que o indivíduo é questionado sobre questões relativas a seu trabalho, à sua experiência. Naquelas em que, mesmo diante de perguntas simples, ele consegue dissertar como se estivesse desenvolvendo uma tese ou um ensaio, defendendo uma idéia, apresentando reflexões que desafiam o leitor, desafios muito maiores do que os que ele próprio, o entrevistado, pode estar enfrentando ao tentar responder as perguntas de maneira clara, lógica, objetiva, inteligente.

Não faltam exemplos desse tipo de entrevista reunidos em livros: a Companhia das Letras publicou no final dos anos 80 dois volumes com entrevistas da revista Paris Review. Com o título de Os Escritores, gente como T. S. Eliot, William Faulkner e Jorge Luis Borges respondia a perguntas que já obrigariam elas próprias a fazer o leitor pensar. Agora, a mesma editora lançou um livro de entrevistas realizadas pelo norte-americano Philip Roth. Entre nós reúne depoimentos de Milan Kundera e Primo Levi, entre vários outros (confesso não ter lido ainda, mas deve seguir a mesma linha). As entrevistas de Antonio Candido para Luiz Carlos Jackson reunidas em A Tradição Esquecida são uma aula sobre vida, literatura e sociologia.

Mas escrevo esse post para pensar um pouco sobre a entrevista do Daniel Galera para o Fórum Virtual de Literatura e Teatro, site vinculado ao Programa Avançado de Cultura Contemporânea (PACC), da UFRJ. Já falei da minha admiração pelo Galera por aqui, já li ou vi outras entrevistas dele, mas creio que esta tem algo que precisaria ser pensado por todo jovem professor de Literatura. Penso nos jovens porque são quem normalmente têm os julgamentos mais definidos na cabeça a respeito do que é a Literatura, mesmo tendo consciência de que ela não pode ser julgada. Reproduzo um trecho:

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Daneila Birman: Sua personagem Anita se opõe fortemente à idealização da literatura. Após ter alcançado sucesso logo no seu livro de estréia, ela perde o interesse pela escrita e critica em seus amigos argentinos a seriedade excessiva com a qual eles encaram a literatura. Você percebe esta idealização na vida literária brasileira hoje? Isso o incomoda?

Daniel Galera: Percebo e me incomoda. Não gosto muito da literatura vista como essa entidade acima do bem e do mal, um prédio majestoso ao qual autores merecedores terão a honra de acrescentar um quarto ou, pior, no qual qualquer pessoa que digite algumas páginas e as chame de literatura poderá construir seu puxadinho. Não acredito na importância desse prédio, talvez nem mesmo em sua existência. Eu vejo a literatura como uma experiência que se renova em cada leitor e autor, a partir de uma necessidade. A literatura é uma grande cidade que se espalha, não um palácio que se ergue em direção ao céu. Autores, críticos e grupos literários que decretam sua auto-importância à sombra desse palácio fajuto me irritam, e leitores que julgam a literatura pelo prisma dessa idealização tola me irritam mais ainda. Não gosto de gente que fala em nome da literatura. Antipatizo imediatamente com quem julga ter autoridade para se manifestar por ela. “Porque a literatura busca isso”, “A literatura é aquilo”, “A literatura deve…”, “A literatura precisa de…” Gosto de pessoas que falam de livros, de cenas emocionantes, de parágrafos que mudaram suas vidas, de frases que as fazem gargalhar ou cair em silêncio profundo sempre que são lembradas, de palavras maravilhosas, de figuras de linguagem que parecem conter verdades imensas que não podem ser expressas de nenhuma outra forma.

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As declarações do Galera deveriam ser lidas nas cadeiras de Teoria da Literatura nos cursos de Letras. Elas ajudariam a eliminar boa parte dos equívocos em torno da figura do autor e da obra literária. Ora, nenhum autor escreve movido por um sentimento de grupo. Pelo menos não deveria ser assim. (Claro, alguém pode lembrar do Modernismo Brasileiro. Aí faço a pergunta: qual é a grande obra dos modernistas? Macunaíma? Não me façam rir porque o assunto é sério. Se considerarmos o Modernismo puro, ou seja, o da década de 20, não há uma grande obra, não há nem uma obra digna de figurar ao lado de Memórias Póstumas de Brás Cubas, Grande Sertão: Veredas, São Bernardo ou Claro Enigma.)

O verdadeiro autor de Literatura sabe que ela “contém verdades imensas que não podem ser expressas de nenhuma outra forma”. E por isso, críticos e professores não podem acreditar que são os porta-vozes da Literatura. Nossa tarefa é pensar sobre ela, tentar explicá-la, mas nunca acreditar que a nossa noção sobre o que é a Literatura é a única correta. Quem pensa dessa forma vai acabar quebrando a cara, mais cedo ou mais tarde. E estão fadados ao fracasso e ao esquecimento os autores que encaram a Literatura como uma “entidade acima do bem e do mal, um prédio majestoso ao qual autores merecedores terão a honra de acrescentar um quarto ou, pior, no qual qualquer pessoa que digite algumas páginas e as chame de literatura poderá construir seu puxadinho”.

Quando a Literatura deixar de ser tratada como uma entidade (porque ela é tratada assim pela maioria das pessoas, sejam leigos ou especialistas) e quando a Literatura deixar de ser encarada com o caráter escolar que ainda possui no país, talvez tenhamos uma sociedade mais inteligente com menos desigualdade e menos barbárie. Mas isso já mereceria outro post, que fica pra outra hora.

30/11/2008

Muitas capitus…

Elisa LucasHá duas semanas, fui assistir ao espetáculo Confesso que capitu, da minha amiga Elisa Lucas. Trata-se de um monólogo, dirigido pelo Roberto Birindelli, escrito pela própria Elisa, que interpreta a personagem mais misteriosa da Literatura Brasileira: Capitu, do romance Dom Casmurro, de Machado de Assis.

Devo confessar que uma adaptação desse tipo normalmente me deixa apreensivo. É difícil transpor para o palco uma adaptação inteligente de um livro tão importante e fascinante. Mas Elisa consegue superar essa dificuldade muito bem. Na realidade, ela não interpreta Capitu do início ao fim: a peça traça um paralelo entre a personagem e uma moça que descobre a personagem. Com engenho, Elisa encarna as várias facetas dessa mulher sedutora, infeliz, que detona o conflito psicológico do pobre Bento Santiago.

Quem não assistiu ao espetáculo, tem a oportunidade de conferi-lo nesta semana. A peça de Elisa está dentro da programação do VII Fórum de Literatura Brasileira e II Fórum de Literatura Portuguesa e Luso-Africanas, que ocorre de terça a quinta, no Centro Municipal de Cultura Lupicínio Rodrigues (Érico Veríssimo esquina com Ipiranga) e na Escola Técnica da UFRGS (Ramiro Barcellos esquina com Ipiranga). As apresentações da peça serão na Sala Álvaro Moreyra (no Centro Municipal de Cultura), às 21h de terça e quinta, dias 02 e 04 de dezembro. Para os participantes do Fórum, haverá desconto especial (mas confesso que agora não sei os valores exatos…).

E na semana que vem, estréia na Globo a minissérie Capitu, também baseada em Dom Casmurro. Dirigida por Luiz Fernando Carvalho, a narrativa terá uma linguagem não-realista, que está se tornando a marca do diretor (vide Hoje é Dia de Maria e A Pedra do Reino), e faz parte do projeto Quadrante, que ainda adaptará Dois Irmãos, de Milton Hatoum, e Dançar Tango em Porto Alegre, de Sergio Faraco.

Michel Melamed como BentinhoNormalmente, Carvalho é muito feliz nessas suas aventuras que misturam literatura, cinema e artes visuais. Vamos aguardar o dia 09/12 pra ter certeza de que a coisa é tão boa quanto parece. Pelo menos, acho que numa coisa ele já certou: Michel Melamed vivendo o Bentinho adulto. (Já a Maria Fernanda Candido interpretando a Capitu adulta me parece um tiro no pé. Ela já viveu uma Capitu naquele filme Dom, uma das maiores porcarias do cinema nacional. Apesar disso, acho que o Carvalho é um diretor muito mais inteligente do que o Moacyr Góes e deve ter aproveitado o que ela tem de bom. Veremos.)