23/12/2008

Se eu tivesse uma arma, eu dava um tiro na televisão

Não costumo ser uma pessoa agressiva nem irritada. Já fui mais violento na defesa de minhas idéias, na minha forma de me expressar. Mas sinto que amadureci e melhorei. Agora, se eu tivesse uma arma ontem à noite, eu teria dado um tiro na televisão, provavelmente. Por dois motivos especiais: as propagandas de final de ano, com mensagens de carinho e alegria, estão mais insuportáveis do que nunca. Dá até vontade de vomitar. A mais insuportável é uma em que uma senhora abre a porta de casa e diz qualquer coisa do tipo “que bom que você veio, a gente passou o ano inteiro te esperando”, e aí entra o Papai Noel.

Mas absurda mesmo está a novela A Favorita, da Rede Globo. Eu parei de assistir a novelas. Houve uma época em que eu era noveleiro de carteirinha. Mas cansei. Agora, confesso que tenho dado uma zapeada nessa novela, porque todo mundo está falando dela. Ontem, no mesmo capítulo, um homossexual deixou de ser homossexual, e um político corrupto ficou arrependido de seus atos. Só mesmo em novela… Como diriam os mestres Larry David e Jerry Seinfeld, not that there’s anything wrong with that, mas poupem-me…

20/12/2008

Sergius Gonzaga matando a pau

Você não compreende por que existem leitores, críticos ou professores de literatura? Então você precisa ler o que escreveu o meu querido Sergius Gonzaga, professor da UFRGS e secretário municipal de cultura. Tá tudo resolvido…

17/12/2008

Entrevista desafiadora

Um dos gêneros mais interessantes e menos estudados dentro da academia é a entrevista. Aliás, tenho a impressão de que ela nem é considerada um gênero literário. Nunca vi ninguém referir-se à entrevista dessa forma. Mas devia ser diferente. Não estou falando de entrevistas tolas, com alguma celebridade indicando o livro que está lendo ou o que gosta de fazer aos domingos. Não estou falando de entrevistas em que nos deparamos com a reflexão de algum intelectual sobre algum assunto muito específico, sei lá, algo como o ataque às torres gêmeas. Penso naquelas entrevistas em que o indivíduo é questionado sobre questões relativas a seu trabalho, à sua experiência. Naquelas em que, mesmo diante de perguntas simples, ele consegue dissertar como se estivesse desenvolvendo uma tese ou um ensaio, defendendo uma idéia, apresentando reflexões que desafiam o leitor, desafios muito maiores do que os que ele próprio, o entrevistado, pode estar enfrentando ao tentar responder as perguntas de maneira clara, lógica, objetiva, inteligente.

Não faltam exemplos desse tipo de entrevista reunidos em livros: a Companhia das Letras publicou no final dos anos 80 dois volumes com entrevistas da revista Paris Review. Com o título de Os Escritores, gente como T. S. Eliot, William Faulkner e Jorge Luis Borges respondia a perguntas que já obrigariam elas próprias a fazer o leitor pensar. Agora, a mesma editora lançou um livro de entrevistas realizadas pelo norte-americano Philip Roth. Entre nós reúne depoimentos de Milan Kundera e Primo Levi, entre vários outros (confesso não ter lido ainda, mas deve seguir a mesma linha). As entrevistas de Antonio Candido para Luiz Carlos Jackson reunidas em A Tradição Esquecida são uma aula sobre vida, literatura e sociologia.

Mas escrevo esse post para pensar um pouco sobre a entrevista do Daniel Galera para o Fórum Virtual de Literatura e Teatro, site vinculado ao Programa Avançado de Cultura Contemporânea (PACC), da UFRJ. Já falei da minha admiração pelo Galera por aqui, já li ou vi outras entrevistas dele, mas creio que esta tem algo que precisaria ser pensado por todo jovem professor de Literatura. Penso nos jovens porque são quem normalmente têm os julgamentos mais definidos na cabeça a respeito do que é a Literatura, mesmo tendo consciência de que ela não pode ser julgada. Reproduzo um trecho:

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Daneila Birman: Sua personagem Anita se opõe fortemente à idealização da literatura. Após ter alcançado sucesso logo no seu livro de estréia, ela perde o interesse pela escrita e critica em seus amigos argentinos a seriedade excessiva com a qual eles encaram a literatura. Você percebe esta idealização na vida literária brasileira hoje? Isso o incomoda?

Daniel Galera: Percebo e me incomoda. Não gosto muito da literatura vista como essa entidade acima do bem e do mal, um prédio majestoso ao qual autores merecedores terão a honra de acrescentar um quarto ou, pior, no qual qualquer pessoa que digite algumas páginas e as chame de literatura poderá construir seu puxadinho. Não acredito na importância desse prédio, talvez nem mesmo em sua existência. Eu vejo a literatura como uma experiência que se renova em cada leitor e autor, a partir de uma necessidade. A literatura é uma grande cidade que se espalha, não um palácio que se ergue em direção ao céu. Autores, críticos e grupos literários que decretam sua auto-importância à sombra desse palácio fajuto me irritam, e leitores que julgam a literatura pelo prisma dessa idealização tola me irritam mais ainda. Não gosto de gente que fala em nome da literatura. Antipatizo imediatamente com quem julga ter autoridade para se manifestar por ela. “Porque a literatura busca isso”, “A literatura é aquilo”, “A literatura deve…”, “A literatura precisa de…” Gosto de pessoas que falam de livros, de cenas emocionantes, de parágrafos que mudaram suas vidas, de frases que as fazem gargalhar ou cair em silêncio profundo sempre que são lembradas, de palavras maravilhosas, de figuras de linguagem que parecem conter verdades imensas que não podem ser expressas de nenhuma outra forma.

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As declarações do Galera deveriam ser lidas nas cadeiras de Teoria da Literatura nos cursos de Letras. Elas ajudariam a eliminar boa parte dos equívocos em torno da figura do autor e da obra literária. Ora, nenhum autor escreve movido por um sentimento de grupo. Pelo menos não deveria ser assim. (Claro, alguém pode lembrar do Modernismo Brasileiro. Aí faço a pergunta: qual é a grande obra dos modernistas? Macunaíma? Não me façam rir porque o assunto é sério. Se considerarmos o Modernismo puro, ou seja, o da década de 20, não há uma grande obra, não há nem uma obra digna de figurar ao lado de Memórias Póstumas de Brás Cubas, Grande Sertão: Veredas, São Bernardo ou Claro Enigma.)

O verdadeiro autor de Literatura sabe que ela “contém verdades imensas que não podem ser expressas de nenhuma outra forma”. E por isso, críticos e professores não podem acreditar que são os porta-vozes da Literatura. Nossa tarefa é pensar sobre ela, tentar explicá-la, mas nunca acreditar que a nossa noção sobre o que é a Literatura é a única correta. Quem pensa dessa forma vai acabar quebrando a cara, mais cedo ou mais tarde. E estão fadados ao fracasso e ao esquecimento os autores que encaram a Literatura como uma “entidade acima do bem e do mal, um prédio majestoso ao qual autores merecedores terão a honra de acrescentar um quarto ou, pior, no qual qualquer pessoa que digite algumas páginas e as chame de literatura poderá construir seu puxadinho”.

Quando a Literatura deixar de ser tratada como uma entidade (porque ela é tratada assim pela maioria das pessoas, sejam leigos ou especialistas) e quando a Literatura deixar de ser encarada com o caráter escolar que ainda possui no país, talvez tenhamos uma sociedade mais inteligente com menos desigualdade e menos barbárie. Mas isso já mereceria outro post, que fica pra outra hora.

30/11/2008

Muitas capitus…

Elisa LucasHá duas semanas, fui assistir ao espetáculo Confesso que capitu, da minha amiga Elisa Lucas. Trata-se de um monólogo, dirigido pelo Roberto Birindelli, escrito pela própria Elisa, que interpreta a personagem mais misteriosa da Literatura Brasileira: Capitu, do romance Dom Casmurro, de Machado de Assis.

Devo confessar que uma adaptação desse tipo normalmente me deixa apreensivo. É difícil transpor para o palco uma adaptação inteligente de um livro tão importante e fascinante. Mas Elisa consegue superar essa dificuldade muito bem. Na realidade, ela não interpreta Capitu do início ao fim: a peça traça um paralelo entre a personagem e uma moça que descobre a personagem. Com engenho, Elisa encarna as várias facetas dessa mulher sedutora, infeliz, que detona o conflito psicológico do pobre Bento Santiago.

Quem não assistiu ao espetáculo, tem a oportunidade de conferi-lo nesta semana. A peça de Elisa está dentro da programação do VII Fórum de Literatura Brasileira e II Fórum de Literatura Portuguesa e Luso-Africanas, que ocorre de terça a quinta, no Centro Municipal de Cultura Lupicínio Rodrigues (Érico Veríssimo esquina com Ipiranga) e na Escola Técnica da UFRGS (Ramiro Barcellos esquina com Ipiranga). As apresentações da peça serão na Sala Álvaro Moreyra (no Centro Municipal de Cultura), às 21h de terça e quinta, dias 02 e 04 de dezembro. Para os participantes do Fórum, haverá desconto especial (mas confesso que agora não sei os valores exatos…).

E na semana que vem, estréia na Globo a minissérie Capitu, também baseada em Dom Casmurro. Dirigida por Luiz Fernando Carvalho, a narrativa terá uma linguagem não-realista, que está se tornando a marca do diretor (vide Hoje é Dia de Maria e A Pedra do Reino), e faz parte do projeto Quadrante, que ainda adaptará Dois Irmãos, de Milton Hatoum, e Dançar Tango em Porto Alegre, de Sergio Faraco.

Michel Melamed como BentinhoNormalmente, Carvalho é muito feliz nessas suas aventuras que misturam literatura, cinema e artes visuais. Vamos aguardar o dia 09/12 pra ter certeza de que a coisa é tão boa quanto parece. Pelo menos, acho que numa coisa ele já certou: Michel Melamed vivendo o Bentinho adulto. (Já a Maria Fernanda Candido interpretando a Capitu adulta me parece um tiro no pé. Ela já viveu uma Capitu naquele filme Dom, uma das maiores porcarias do cinema nacional. Apesar disso, acho que o Carvalho é um diretor muito mais inteligente do que o Moacyr Góes e deve ter aproveitado o que ela tem de bom. Veremos.)

24/11/2008

Como era bom ser garoto…

Minha Aldeia

No último fim de semana arranjei um tempo para ler Minha aldeia, novo livro do meu colega e orientador Luís Augusto Fischer (R$ 15,00, o livro está sendo lançado por uma editora nova, de Caxias do Sul, a Belas Letras). O texto é claramente voltado para jovens de 12, 13 anos, mas fiquei com uma sensação esquisita, que já senti outras vezes. É assim uma espécie de dor por não ter lido isso antes. Ter lido esse texto antes seria impossível, porque o livro foi lançado agora. Mas a idéia é justamente essa.

Explico: eu tinha uns 22 anos quando li pela primeira vez O Apanhador no Campo de Centeio, do J. D. Salinger. Gostei muito, mas fiquei com a mesma sensação: devia ter lido esse texto antes. Quando comecei a dar aulas para 5ª e 6ª séries, li alguns textos que nunca havia lido: As aventuras de Tom Sawyer, de Mark Twain, e O Mágico de Oz, do Lyman Frank Baum, por exemplo. Li porque queria trabalhar esses textos com os alunos. Era meu primeiro emprego numa grande escola de Porto Alegre, salário bastante atraente, ótima estrutura de trabalho, enfim, uma chance muito boa. E eu preferia trabalhar com textos que não fossem adaptações de obras clássicas. Não que eu seja totalmente contra adaptações. Já fui mais radical com relação a isso, mas hoje não tanto. Só continuo achando que há livros destinados a todas as idades e que não tem muito sentido trabalhar a Odisséia adaptada se os alunos não leram ainda O Médico e o Monstro, que pode ser lido tranqüilamente no original traduzido. Nisso, ganhei bastante apoio da equipe pedagógica e consegui realizar um bom trabalho.

O Apanhador eu li porque queria ler, mas, com esses outros que citei, fiquei com a mesma sensação de que devia ter lido antes, porque teria aproveitado melhor a leitura, porque teria me encantado mais, porque talvez hoje eu fosse um leitor melhor do que sou. Quando comecei a ler de maneira assídua, lá pelos 14, 15 anos, fui direto a obras consagradas da literatura adulta: Hamlet (Shakespeare), Édipo Rei (Sófocles), Memórias Póstumas de Brás Cubas (Machado de Assis), A Ferro e Fogo (Josué Guimarães), O Continente (Érico Veríssimo)… Eu não era um autodidata ou um adolescente metido a intelectual: essas foram algumas das leituras que fiz a pedido dos professores entre a 8ª série e o 2º ano do Ensino Médio (na época, 2º Grau). Foi graças a esses professores que aprendi a gostar de ler, porque tive de ler ótimos livros. Não que minha família não nos incentivasse, a mim e a meu irmão. Dinheiro pra livros nunca faltou. Mas o gosto pela literatura veio pelas mãos dos mestres, mesmo.

No entanto, essa novela do Fischer traz mais do que uma simples sensação do tipo “devia ter lido antes”. Ela consegue captar essas emoções de aprender coisas novas, de descobrir mundos novos, que vão se perdendo à medida que ficamos adultos. O protagonista da narrativa (em 3ª pessoa) chama-se Felipe: tem 12 anos, mora numa cidade do interior chamada Conceição do Arroio e, como todo adolescente do século XXI, tem muitas perguntas, e normalmente não encontra respostas para a maioria delas. Já no primeiro capítulo, somos jogados no meio de uma aula de Geografia, com Felipe perguntando “Tá, professora, eu entendi, mas aqui não tem nada que seja maior?” Só lá pela metade desse primeiro capítulo é que vamos conhecer quem é o Felipe e por que ele faz esse tipo de perguntas. Em seguida, a família do Felipe vê-se obrigada a mudar-se para a capital, o que gera angústias e emoções variadas, afinal ele se distanciaria dos amigos, dos parentes mais próximos e da quase namorada para conhecer e viver uma cidade que, esta sim, aparecia nos mapas de Geografia e História, com todas as conseqüências de se morar numa cidade grande e nova (além dos novos amigos, do novo colégio, ter de lidar com a violência, por exemplo).

Fischer consegue conduzir a narrativa de forma leve, bem humorada, criando a tensão necessária e realista. É quase como se o texto tivesse sido escrito por um jovem de 12 anos, embora seja difícil encontrar alguém com talento para tanto nessa idade. O que quero dizer é que, se não estou enganado, não há garoto ou garota que não vá gostar dessa história. E mesmo para nós, adultos, ela ajuda a recuperar muito da inocência que se perdeu na época em que qualquer lugar podia se transformar no melhor lugar do mundo. Depois farei o teste com meu irmão que está chegando aos 10 anos e conto pra vocês…

16/11/2008

Foi ótimo ter estado com vocês…

Bem, o show d’Os Galãs da Menopausa na BlowUp foi espetacular. Há anos eu não me apresentava e não imaginava como tudo aconteceria. O Claus achou que foi o melhor show da banda. Acho que foi mesmo. Certamente foi o melhor palco, o melhor repertório, o melhor público… Aliás, o público deixou a banda toda muito emocionada. Foi ótimo ver vários amigos e alunos dançando e pulando ao som das nossas músicas. Senti que o pessoal estava gostando tanto que nem conseguiu perceber quais eram as nossas canções e quais eram covers.

(Uma moça veio até o palco antes do início do show pra contar que ela e o marido tinham se conhecido no Ocidente há exatamente dois anos. Ela parecia ter achado bacana o fato de que a banda estava comemorando dez anos do lançamento da primeira fita-demo. Eu queria ter homenageado o casal, mas não consegui racionalizar essa informação durante o show, então fica aqui minha singela homenagem ao casal.)

E pra quem quiser um cd com os novos hits d’Os Galãs, é só entrar em contato para fecharmos negócio. O cd vem acompanhado de um belo encarte e, para os fãs mais exaltados, podemos autografá-lo registrando toda nossa emoção.

Foi ótimo ter estado com vocês. Muito obrigado a todos pela presença no show!

13/11/2008

Site de cara nova

Atualizei totalmente o site d’Os Galãs da Menopausa. Arrumei alguns textos que continham informações confusas e equivocadas, incluí as novas canções para download, recém saídas do forno, novas fotos apresentando o Cereja (Alexandre Garcez, ou Alexandre Turnurinha, enquanto Galã), novo baterista da banda. Enfim, o site ficou bem bacana, eu acho.

Gostaria de registrar que teremos cds à venda no dia do show por um preço estupidamente irrisório. Caso você não tenha paciência pra downloads, guarde um troquinho pra sábado. Além do quê, o cd virá com capinha…

Não sabe quando é o show? Quanto? Onde? Por quê? Não entendeu nada do que estou falando? Confere tudo aí embaixo, nos post anterior.