Grifão
em busca da melhor literatura

21/08/2008

Bilac

Um dos sonetos mais belos já escritos em língua portuguesa (e talvez um dos mais piegas) é o XIII da Via Láctea, de Olavo Bilac:

“Ora (direis) ouvir estrelas!  Certo
Perdeste o senso!” E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-Ias, muita vez desperto
E abro as janelas, pálido de espanto …

E conversamos toda a noite, enquanto
A via láctea, como um pálio aberto,
Cintila.  E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.

Direis agora: “Tresloucado amigo!
Que conversas com elas?  Que sentido
Tem o que dizem, quando estão contigo?”

E eu vos direi: “Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas.”

Fazia tempo que eu não escrevia por aqui e resolvi atualizar este espaço graças a uma conversa com o prof. Marcelo Frizon a respeito do parnasianismo. Seguindo as idéias do prof. Luís Augusto Fischer, o prof. Frizon me explicou que, no fundo, o parnasianismo é visto de forma preconceituosa hoje por causa da propaganda negativa do modernismo. E a prova disso é o poema acima, entre outros do próprio Bilac e também do Raimundo Correa, especialmente. Agora, o Alberto Oliveira é difícil de engolir…

Postado às 19:12 por Grifão Duarte
Categoria: Literatura Brasileira | Sem comentários
Tag(s):

04/07/2008

Machado e Borges

Machado e Borges“Um nasceu pobre, de pais apenas alfabetizados (o pai um mulato pobre, pintor de paredes, e a mãe uma portuguesa pobre recém-chegada ao novo país, trabalhando em serviços humildes), o outro nasceu muito bem colocado socialmente, com pais requintados leitores (o pai professor e escritor, a mãe tradutora, ambos com ascendentes de primeira importância em seu país). O primeiro teve pouca escolaridade formal, o segundo graduou-se na Europa; aquele, escrevendo em português, uma língua de acanhada circulação internacional no plano letrado, nunca saiu de seu país, enquanto este, bilíngüe de família e escrevendo em espanhol, língua de central importância no mundo culto, viveu na Europa vários anos em sua formação e, adulto, viajou pelo mundo todo. O primeiro, Joaquim Maria Machado de Assis, brasileiro, viveu no tempo do navio e do telégrafo, entre 1839 e 1908, e o segundo, Jorge Luis Borges, argentino, viveu no tempo do automóvel, do avião e do rádio (e da televisão), entre 1899 e 1986.

Até aqui, tudo separa e nada une esses dois gênios da literatura, como se vê pelos dados apontados, aos quais se poderiam acrescentar vários outros — a dura batalha pela sobrevivência de Machado, num país desde sempre mesquinho para com os de baixo como ele, aos quais não proporciona nem mesmo uma escola elementar decente, contrastando com a formação muito confortável de Borges, que não foi rico mas nunca teve problemas de sobrevivência. Isso sem contar as enormes diferenças entre o Brasil de D. Pedro II — o lugar e o tempo do auge do café produzido com mão-de-obra escrava —, quando floresce Machado de Assis, e a Argentina abastacedora da Europa em carne, lã e trigo, a partir das primeiras décadas do século 20, o tempo da formação de Borges.

Mas algo os une profundamente: cada um a seu tempo e modo, em seu país e sua língua, mediante as armas literárias disponíveis, ambos conseguiram o não pequeno milagre de equacionar satisfatoriamente
os dilemas e as tensões entre a vocação das letras, na arte e no pensamento (e não por acaso os dois com temperamento clássico, antiapaixonado, paciencioso), e a condição objetiva de morar e pertencer a contextos culturais secundários, periféricos, mal desenvolvidos em comparação com os melhores contextos ocidentais disponíveis. Os dois, com muitas diferenças mas com inacreditáveis semelhanças, que interessa conhecer, conseguiram o milagre de produzir obra superior a partir de posições relativamente inferiores. Como foi isso?”

Apesar de ser um texto teórico, achei que merecia um post por aqui: este é o primeiro capítulo do primeiro texto do livro Machado e Borges — e outros ensaios sobre Machado de Assis, de Luís Augusto Fischer, publicado pela editora Arquipélago. Pelo tom, dá pra sentir que é um texto que pode ser lido tanto pelo leitor comum interessado na obra de Machado (e Jorge Luis Borges, e Edgar Allan Poe, ou em boa literatura, simplesmente), quanto pelo acadêmico mais refinado. Fischer consegue demonstrar com fantástica clareza por que Machado de Assis é um gênio.

25/06/2008

Palmeiras Selvagens

Palmeiras Selvagens, William Faulkner“A batida soou outra vez, ao mesmo tempo discreta e peremptória, enquanto o médico descia as escadas, o facho de luz da lanterna projetando-se à sua frente pela escada manchada de marrom, iluminando o lambri macho e fêmea, manchado de marrom, do vestíbulo. Era uma casa de praia, embora tivesse dois andares, iluminada por lampiões de querosene — ou por um lampião de querosene, que sua mulher tinha levado para cima quando subiram depois do jantar. E o médico usava um camisolão de dormir, não um pijama, pela mesma razão por que fumava cachimbo, coisa de que nunca conseguira e, sabia, nunca conseguiria gostar, entremeado aos charutos ocasionais que os pacientes lhe presenteavam entre um domingo e outro, quando fumava os três charutos que achava que podia comprar por conta própria, embora fosse proprietário da casa da praia e também da casa vizinha e da outra, a moradia com eletricidade e paredes revestidas de gesso, no povoado, a quatro milhas de distância. Porque ele agora estava com quarenta e oito anos e tinha dezesseis e dezoito e vinte na época em que seu pai lhe dizia (e ele acreditava) que cigarros e pijamas eram coisas de almofadinhas e mulheres.”

Esta é a abertura do livro Palmeiras Selvagens, de William Faulkner, publicado pela Cosac Naify, uma das melhores editoras brasileiras.

William Faulkner (1897-1962), prêmio Nobel de Literatura em 1949, é o meu autor norte-americano favorito, e este romance, lançado em 1939, é o seu mais bem acabado, a meu ver. É impressionante como ele consegue inserir o leitor no meio de um turbilhão desde o primeiro parágrafo, que, no entanto, mais esconde do que revela o que está por vir.

O romance apresenta, na realidade, duas histórias independentes, alternando capítulos. Citando a descrição do livro no site da editora: “a primeira (das duas histórias), que dá título ao volume, conta a paixão tumultuada e impossível de Charlotte e Henry; a segunda, “O velho”, narra a luta de um condenado que sai da prisão para salvar as vítimas de uma das maiores enchentes do rio Mississipi.”

A busca de Charlotte e Henry, a sua tentativa de viver de amor — no fundo o desejo de final de qualquer ser humano –, revela-se impossível, o que contrasta de maneira às vezes estúpida, às vezes patética, com a história do prisioneiro no Mississipi. Certamente este é mais um livro do qual se sai diferente depois da leitura.

Dica: se você domina a língua inglesa, tente ler a narrativa no original.

Postado às 19:12 por Grifão Duarte
Categoria: Literatura Norte-americana | Sem comentários
Tag(s):

22/06/2008

Obrigado!

Fico muito feliz com esta recepção calorosa, especialmente pelas palavras queridas de meu amigo Marcelo Frizon em seu blog ::unhas::roídas. Aliás, também devo agradecer pelo belo layout criado pela Surdina Webdesign (leia-se Marcelo Frizon). A foto do velho homem lendo um pequeno livro é tocante e está cheia de história. Renderia um belo conto, certamente. Fica o desafio para você, caro leitor com ambições literárias.

Em breve postarei mais um trecho de algum livro de minha biblioteca. Por enquanto, fica o agradecimento!

Postado às 21:52 por Grifão Duarte
Categoria: Auto-comentário | Sem comentários

O legado de Eszter

O legado de Eszter - capa“Não sei o que Deus ainda reserva para mim. Entretanto, antes de morrer, quero contar a história do dia em que Lajos esteve comigo pela última vez e me roubou. Adio estas anotações há três anos. Sinto agora como se uma voz, a que não consigo me opor, me incitasse a narrar os acontecimentos daquele dia - e tudo o que sei sobre Lajos - pois esse é meu dever e não me resta muito tempo. Essa voz é inequívoca. É por isso que obedeço, em nome de Deus.

Já não sou jovem, nem tenho saúde, e em breve deverei morrer. Ainda temo a morte?… O domingo em que Lajos esteve aqui pela última vez curou-me também do medo da morte. Talvez o tempo, que não se compadeceu de mim, talvez a lembrança, que não é cruel como o tempo, talvez uma graça especial que, segundo o ensinamento de minha fé, cabe também aos indignos e despeitados, talvez, simplesmente, a experiência e a velhice me levem a encarar a morte com serenidade. Ao me presentear, a vida foi maravilhosa, e ao me roubar, perfeita… que mais posso esperar? Tenho de morrer, pois essa é a lei e porque cumpri meu dever.

Dever, palavra grandiosa! - e nesse instante assustei-me um pouco ao vê-la no papel. Palavra pretensiosa, que obriga a marcar posição, alguma hora, diante de alguém. Custei a reconhecer meu dever, e sob que resistência, sim, sob que protesto e lamento desesperado obedeci. Senti então, pela primeira vez, que a morte pode ser libertação, descobri que a morte é absolvição e paz. Somente a vida é luta e infâmia. Como foi ímpar essa luta! Quem ordenou que fosse impossível esquivar-me dela? Fiz de tudo para fugir. Mas o inimigo me perseguiu. Hoje sei que não podia ser diferente; estamos atados a nossos inimigos e também eles não conseguem nos evitar.”

Como este é o primeiro post deste já famigerado blog, achei que devia começar em grande estilo. Então, O legado de Eszter, de Sándor Márai, editado pela Cia. das Letras, é uma das melhores narrativas da Hungria. A distância do magiar para o português é quebrada magistralmente pelo tradutor Paulo Schiller, que traduziu outros romances do escritor húngaro. O livro é, no fundo, um grande tratado sobre a sedução. Impossível não sair da leitura sem uma sensação de transformação.

Postado às 16:58 por Grifão Duarte
Categoria: Intimismo, Literatura Húngara, Sedução | Sem comentários
Tag(s):