“Um nasceu pobre, de pais apenas alfabetizados (o pai um mulato pobre, pintor de paredes, e a mãe uma portuguesa pobre recém-chegada ao novo país, trabalhando em serviços humildes), o outro nasceu muito bem colocado socialmente, com pais requintados leitores (o pai professor e escritor, a mãe tradutora, ambos com ascendentes de primeira importância em seu país). O primeiro teve pouca escolaridade formal, o segundo graduou-se na Europa; aquele, escrevendo em português, uma língua de acanhada circulação internacional no plano letrado, nunca saiu de seu país, enquanto este, bilíngüe de família e escrevendo em espanhol, língua de central importância no mundo culto, viveu na Europa vários anos em sua formação e, adulto, viajou pelo mundo todo. O primeiro, Joaquim Maria Machado de Assis, brasileiro, viveu no tempo do navio e do telégrafo, entre 1839 e 1908, e o segundo, Jorge Luis Borges, argentino, viveu no tempo do automóvel, do avião e do rádio (e da televisão), entre 1899 e 1986.
Até aqui, tudo separa e nada une esses dois gênios da literatura, como se vê pelos dados apontados, aos quais se poderiam acrescentar vários outros — a dura batalha pela sobrevivência de Machado, num país desde sempre mesquinho para com os de baixo como ele, aos quais não proporciona nem mesmo uma escola elementar decente, contrastando com a formação muito confortável de Borges, que não foi rico mas nunca teve problemas de sobrevivência. Isso sem contar as enormes diferenças entre o Brasil de D. Pedro II — o lugar e o tempo do auge do café produzido com mão-de-obra escrava —, quando floresce Machado de Assis, e a Argentina abastacedora da Europa em carne, lã e trigo, a partir das primeiras décadas do século 20, o tempo da formação de Borges.
Mas algo os une profundamente: cada um a seu tempo e modo, em seu país e sua língua, mediante as armas literárias disponíveis, ambos conseguiram o não pequeno milagre de equacionar satisfatoriamente
os dilemas e as tensões entre a vocação das letras, na arte e no pensamento (e não por acaso os dois com temperamento clássico, antiapaixonado, paciencioso), e a condição objetiva de morar e pertencer a contextos culturais secundários, periféricos, mal desenvolvidos em comparação com os melhores contextos ocidentais disponíveis. Os dois, com muitas diferenças mas com inacreditáveis semelhanças, que interessa conhecer, conseguiram o milagre de produzir obra superior a partir de posições relativamente inferiores. Como foi isso?”
Apesar de ser um texto teórico, achei que merecia um post por aqui: este é o primeiro capítulo do primeiro texto do livro Machado e Borges — e outros ensaios sobre Machado de Assis, de Luís Augusto Fischer, publicado pela editora Arquipélago. Pelo tom, dá pra sentir que é um texto que pode ser lido tanto pelo leitor comum interessado na obra de Machado (e Jorge Luis Borges, e Edgar Allan Poe, ou em boa literatura, simplesmente), quanto pelo acadêmico mais refinado. Fischer consegue demonstrar com fantástica clareza por que Machado de Assis é um gênio.